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Disputa por ilha na tríplice fronteira eleva tensão entre Peru e Colômbia

A disputa territorial entre Peru e Colômbia pela ilha de Santa Rosa, na tríplice fronteira com o Brasil, ganhou força em agosto de 2025 e intensificou tensões diplomáticas e militares na região amazônica. Localizada no rio Amazonas e com cerca de 27 km², a ilha abriga aproximadamente 3 mil moradores e é reivindicada pelos dois países. O Peru a considera parte de seu território, enquanto a Colômbia argumenta que a formação não foi contemplada nos tratados do século passado. A crise escalou após o Peru criar, em julho, o distrito de Santa Rosa de Loreto, o que gerou protestos colombianos e deslocamento de tropas para a área.

O conflito remonta a 2024, quando autoridades colombianas questionaram a ocupação peruana durante uma reunião bilateral. No entanto, a tensão aumentou quando o Congresso peruano elevou Santa Rosa à categoria de distrito, reforçando sua presença com bandeiras e militares. Em resposta, o presidente colombiano Gustavo Petro acusou o Peru de apropriação unilateral e ameaçou recorrer à Justiça internacional. O governo de Dina Boluarte, por sua vez, sustenta que não há pendências territoriais.

A ilha surgiu entre as décadas de 1950 e 1970, formada por sedimentação natural no rio Amazonas. Ocupada predominantemente por peruanos desde os anos 1960, possui símbolos nacionais, presença de forças de segurança e serviços administrativos. A Colômbia, no entanto, afirma que Santa Rosa não consta no Tratado Salomón-Lozano de 1922, que delimitou a fronteira pelo canal mais profundo do rio. Alterações no curso do Amazonas, agravadas por mudanças ambientais, aproximaram a ilha de Leticia, no lado colombiano, acirrando a disputa.

Além do aspecto territorial, a questão envolve interesses econômicos estratégicos. Leticia, principal porto colombiano na região, depende do acesso ao rio para o comércio e o turismo. Estudos da Universidade Nacional da Colômbia mostram que o fluxo de água do lado colombiano caiu de 30% em 1993 para 19,5% atualmente, com risco de perda de acesso direto até 2030. Para o Peru, consolidar a soberania sobre Santa Rosa significa ampliar sua presença na Amazônia e atrair investimentos.

A população da ilha vive com infraestrutura precária, sem sistema contínuo de água potável, energia elétrica instável e rede de esgoto. Embora administrada pelo Peru, a comunidade depende de serviços de saúde, educação e comércio fornecidos por Tabatinga (Brasil) e Leticia (Colômbia). Produtos essenciais chegam em sua maioria do lado brasileiro, e muitos moradores estudam em escolas colombianas por falta de estrutura local.

A crise ganhou contornos militares em agosto, quando o Peru acusou a Colômbia de violar seu espaço aéreo com um avião A-29 Supertucano. O sobrevoo foi considerado não intencional pelos colombianos, mas gerou protestos formais. Tropas dos dois países reforçaram a presença na área, e o Peru fincou bandeiras em pontos estratégicos de Santa Rosa. Bogotá propôs reativar a Comissão Mista Permanente de Inspeção da Fronteira (COMPERIF), mas Lima rejeitou.

Historicamente, a fronteira foi definida pelo Tratado Salomón-Lozano de 1922, com ajustes em 1929, que atribuíram a ilha Chinería ao Peru. Como Santa Rosa ainda não existia na época, a Colômbia defende que novas formações devem ser discutidas bilateralmente. O Peru sustenta que a ilha é uma extensão de Chinería e, portanto, de sua jurisdição. A falta de consenso sobre a interpretação dos tratados mantém o impasse.

A resolução da disputa dependerá de negociações diplomáticas ou da intervenção de órgãos internacionais, como a Corte Internacional de Justiça. Petro já sinalizou essa possibilidade, mas reconhece que processos desse tipo podem se arrastar por anos. Enquanto isso, a presença militar na região aumenta o risco de incidentes, e o Brasil, embora mantenha neutralidade, é apontado como potencial mediador devido à sua posição estratégica na tríplice fronteira.

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